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Um fenômeno chamado Orisá

Henrique Araújo da Silva*

Foto: Dan Kitwood / Getty Images

Introdução

A palavra Orisá, já é bem conhecida do povo brasileiro, inclusive grande parte da população acredita na força deles, seja pelo medo, seja pela devoção, ou seja por algum favor que conseguiu do mesmo. No entanto, para os praticantes de alguma das religiões de matriz africana ou afro-brasileira, o seu significado pode ser mais amplo ou resumido. Mas o fato é, muitas das nossas informações por forças históricas são contaminadas. Não só contaminadas com o sincretismo com a cristandade, mas contaminada pela ideia de supremacia de alguns povos do continente africano. E esta ideia de pureza, ou realeza, pode atrapalhar e muito a verdade do culto e criar problemas do ponto de vista social e espiritual.

Para isto, utilizaremos alguns tópicos para que de forma pragmática possamos versar sobre dois tópicos:

1. Por que religiões e não religião afro-brasileira;

2. A diversidade de grupos étnicos registrados no nordeste brasileiro;

Porque Religiões e não religião afro-brasileira?

Não podemos ser inocentes de acreditar que a divisão do continente africano coincide com a nossa ideia geográfica de divisão territorial e cultural. Na região da África, de onde sabemos vir o culto que aqui mantemos, ou seja, Nigéria e Benin, no mesmo bairro pode ter mais de 10 etnias, línguas, culto e divindades diferentes e consequentemente, maneiras distintas de ser e entender o mundo.

O tratado de Tordesilhas e a conferencia de Berlim, olham para as terras desconhecidas e posteriormente descobertas, como propriedade e desrespeita na sua essência, o que mantém e dá unidade ao que chamamos de cultura africana.

Sabemos também, que cada tribo tem seu patrono, seu fundador. Este é o ancestral venerado pelos membros daquela comunidade e é nisto que está o cerne da questão.

No Brasil, os cultos sobre tudo de Pernambuco e Maranhão, são ligados a uma família, uma pequena comunidade e posteriormente aquela pequena comunidade se abre para as pessoas que perderam sua origem, assim, se formam as comunidades de culto aos Orisás.

No livro “Álbum fotográfico” de Euclides Menezes (de saudosa memória), relata pelo menos 10 grupos étnicos, onde as pessoas sabiam suas raízes, sejam do mundo Congo/Angola, seja do Benin/Nigéria e outras territorialidades, e é interessante que o autor, em nenhum momento fala de “nação de candomblé”, ele sempre se refere a casas e o que tocam as casas e como elas salutarmente interagiam, e assim compunham o que chamamos de religiões de matriz africana.

Então, sabendo que há uma variedade considerável de cultos vindos para o Brasil, não podemos cometer a falta grave de simplesmente reduzir nossos ancestrais africanos e brasileiros que muito lutaram para viver e cultuar suas raízes montando uma religião dos Orisás, diminuta e empobrecida de valores, mitos e sobretudo de uma filosofia.

Por força da riqueza cultural nós temos que nos reconhecer como Religiões ou pelo menos uma religião que agrega a multiplicidade cultural vinda do continente africano, pois dentro de uma casa de culto, diversas divindades que historicamente nem pertencem ao mesmo panteão são celebradas no mesmo espaço.

Por todas estas questões é que não podemos cair na inocência de acreditar que existe uma casa com pureza étnica, uma comunidade que é genuinamente africana, porque nem consanguineamente, somos puros, e no Brasil ainda temos uma coisa muito triste que paira sobre nós, que é o colorismo, quanto mais retinto mais excluído inclusive dos espaços religiosos.

A diversidade de grupos étnicos registrados no nordeste brasileiro

No livro “a formação do Candomblé” de Luiz Nicolau e no livro “memorias fotográficas” do Talabian Euclides, há relatos de pessoas de diversas etnias, inclusive com sua linguagem preservada. As pessoas mantinham sua forma de culto, nas suas casas. Algumas comunidades, por força da necessidade social acabaram se tornando abrigo de famílias, como é o caso do sitio do pai adão, Opò Afonjá, dentre outras comunidades. Mas o fator central é a devoção dos praticantes desta religiosidade.

Cada comunidade a partir do grupo étnico fundador, possui suas características, formas de fazer e cultuar o sagrado, e este culto está baseado, não apenas em uma mitologia como foi a de Adão e Eva, mas em história real, pois no continente africano, o culto aos ancestrais divinizados, estão conectados a forma que estas divindades viveram. Sendo assim, muito dos procedimentos religiosos que são feitos nas comunidades, estão ligados ao comportamento da divindade quando viva, ou seja, nosso culto é uma repetição de um comportamento.

É de suma importância, entender, procurar aprender e aceitar que os Orisás e Voduns existiram, porque além de reforçar a questão da nossa identidade e nos mostrar que dentro de nosso ser essencial há uma divindade, desconstrói as questões folclóricas a cerca da nossa religiosidade. Interessante de se observar que os mitos de outras religiões são intocáveis, inclusive muitos praticantes das religiões de matriz africana acreditam neles e acreditam piamente no sincretismo, ora, os conceitos de divindade e a cosmologia africana não bate nem de raspão na cosmologia europeia. O mundo europeu tende a ver o mundo de forma platônica, onde o céu está fora, e o sujeito precisa se aproximar e buscar. Para nós, na nossa linhagem temos um descendente diretamente criado pelas arque divindades criadoras, sendo assim, nos encontrarmos com ela, nos garante as primícias do descanso pós-morte e a garantia de que cultuando o nosso ancestral, desenvolveremos um bom caráter.

O grande problema do Brasil hoje nas religiões de matriz africana, é que a nossa origem se perdeu, muitos negros sabem que precisam fazer obrigações para ancestralidade, fazem e a vida não desenvolve, justamente porque a ignorância a cerca das diversidades étnicas e da diversidade de cultos, impedem muitos sacerdotes de executarem com devoção, respeito e certeza os procedimentos rituais.

Respeitar as multiplicidades de etnias inclusive no mundo espiritual, é oportunizar ao outro, se descobrir e tornar-se responsável pelo seu caminho espiritual. Este comportamento de que alguém é guia de um rebanho, é próprio das religiões éticas e não das nossas. Nossa religiosidade evoca a família, temos que ter família, ser família e nos reconciliarmos por pior que seja a nossa história com os nossos antepassados, isto sim, nos trará riquezas espirituais e felicidade.

Conclusão

O título deste pequeno texto, fala a palavra fenômeno. E é usada de forma proposital, posto que, estes cultos não são dogmáticos e as verdades conceituais, são formadas a partir de uma praxis, e cada grupo, ou casa, a partir do seu fazer cotidiano, cria de maneira pragmática seus costumes, que com o passar do tempo, serão sacralizados pelos membros descendentes.

Quando se lê alguns livros que tratam de história africana e afro-brasileira, observamos que os mitos fundamentes tem conexões diretas com a história.

Temos nas religiões as famosas quizilas, das mais famosas é a quizila de Sàponá e Sòngò, ora, como duas divindades filhas do mesmo pai, são rivais, de onde vem a rivalidade?

Vejamos, o império de Sóngó a famosa Oyo expandia-se, e o seu maior inimigo era o império do Daomé cujo o ancestral forte é Sàponá, sendo assim, uma briga histórica se transforma em justificativas religiosas.

O mais importante de tudo isto, é respeitar a história de África, a história do Brasil no passado e a manutenção deste culto ancestral sem excessos, sem romantismos e com muito asé, muito caráter e mãos e mentes limpas, afim de que na hora de nossa morte Esú, a única divindade que anda entre os homens e Olorun, dê bom testemunho de nós.

Orisá, motumba!

Baba Egungun, motumba!

Meu pai e minha mãe, motumba!

Sugestão de leitura:

v A formação do candomblé , história e ritual da nação jeje na bahia por Luis Nicolau Parés;

v Álbum fotográfico, arquivo de um babalorixá por Euclides Menezes;

v A filosofia de òrúnmìlà-ifá e a formação do bom caráter – por Sebastião Fernando

  • * Possui graduação em Teologia pela Faculdade Unida de Vitória (2013), graduação em Pedagogia pela Faculdade AD1 (2013) e graduação em Filosofia pela Faculdade Católica de Anápolis/Instituto de Ciências Humanas João Paulo II (2015). É pós-graduado em Docência no Ensino Superior pelo Centro de Ensino Superior do Brasil (2014) e História e Cultura Afro-brasileira e Africana pela Universidade Federal de Goiás (2015). Tem experiencias nas áreas de Educação, Teologia, História e Filosofia.

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