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Reflexão sobre mitos e fenômenos no Brasil neo-colonial

Atualizado: 6 de set. de 2019


Bandeira e Ibá do nKissi Kitembo no templo Ilé Ogí
foto - Clebson Marques

*Henrique Silva

Na minha vida de ativismo nas causas negras, e nas questões afro- religiosas, tenho me deparado com falas muito boas a cerca da história do africano no Brasil e da luta por igualdade racial. No entanto tenho percebido que quanto mais as discussões se aprofundam, mais a intolerância aumenta, o ódio racial se propaga, os afro-brasileiros cada vez estão menos convencidos de um “Apartheid” e os discursos por mais profundos que sejam, não chegam aos corações e isto me causa um incomodo profundo.

Ainda no bojo dos discursos, a questão da miscigenação e das relações amorosas, os estereótipos de beleza e as crenças nas religiões tradicionais são usualmente trituradas, é como se ser descendente de África fosse bom demais ou ruim demais, e a cristalização das discussões ao redor do negro, negro este criado pelo processo de escravização mercantilista da expansão marítima, fazem com que nossos olhares não percebam um grande problema que não vejo vir a baila que é o problema relacionado aos mitos fundantes.

O que são mitos

Ao perguntar a qualquer pessoa sobre o que é um mito, possa ser que a maioria delas vá dizer que é uma forma fantasiosa de narrar uma história ou contar algo.

Sim! de fato o mito narra acontecimentos de forma fantasiosa, mas o que não levamos em consideração, é que o mito é uma expressão da realidade de um povo, ou grupo étnico. Os mitos evocam para além da historia, os rituais que compõem o cotidiano das pessoas e muitas vezes são a chave de compreensão de determinados comportamentos e mais ainda, são as motivações das relações individuais e interpessoais.

Exemplos de mitos temos inúmeros , mais podemos citar alguns o mito do coco para algumas tribos indígenas para explicar a origem da noite, o mito da caixa de pandora para explicar os males do mundo, o mito de criação do mundo dos povos abraamicos que acreditam que a origem dos povos venham de Adão e Eva.

Não existe problema nas explicações fantásticas dos mitos, porém é preocupante quando o mito que tem função cultural para um grupo, sai do campo metafórico e cai no campo político/metafisico e aí instala-se uma imposição de algo especifico que é tomado como universal desrespeitando a pluralidade de culturas.

Mito no campo político/metafisico

Ao longo da história da formação do pensamento ocidental, a esteira mental pela qual percorreram muitos pensadores foi engendrada por Platão e Aristóteles. Ambos filósofos tinham como meta a busca do conhecimento verdadeiro. Em busca de conhecimento verdadeiro Agostinho adaptou o pensamento de Platão criando a cosmovisão de universo que temos ainda hoje no mundo ocidental, a crença em um céu distante, num Deus criador e soberbo de bondade, um diabo malvado e muito próximo dos homens.

Segundo José Comblin, padre católico organizador da teologia da enxada na década de 1969, foi justamente a dualidade platônica engendrada por Agostinho, que permitiu a Igreja castigar os cativos e prometer-lhes o batismo afim de que eles após a morte ganhassem o reino dos céus.

Fora do ambiente religioso, os filósofos iluministas discutiam a liberdade e também os filósofos contratualistas tratavam desta temática, porém quando se tratava das questões da escravização mercantil praticada a época, passavam ao largo, e autores como Hobbes vai até dizer que esta escravidão é algo natural ou congênere ao poder, que talvez fosse uma faze que determinados grupos tenham que passar por não serem considerados evoluídos. Porém quero dizer que não quero levantar aqui uma discussão sobre o que pensavam os filósofos, mas quero apenas apresentar mais uma vez o mito, mais um mito filosófico, e podemos também citar os mitos científicos, pois a ciência também tem seus mitos e suas crença e com isto, formam seus dogmas.

Todas estas questões levantadas, no passado, foram alinhadas as convenções morais da época, e é sobre esta égide que esta formatado fenomenologicamente os povos indígenas e africanos.

O resultado destes mitos é a criação de sujeitos constituídos inferiores e problemáticos, pois afinal são mais de cinco séculos dizendo a todos que os negros da terra e os negros africanos são inferiores. E ai o verbo se faz carne e o mito se concretiza.

Novos mitos

Conversando com amigos numa roda de conversa, me dei conta de que não é possível viver e pensar um mundo novo, a partir de referenciais epistemológicos com aplicações fenomenológicas antiquadas.

As gerações atuais e as futuras terão um grande desafio que é o de resgatar a historia da história, ou melhor dizendo, a história das pessoas a partir delas mesmas. Não é uma tarefa fácil, posto que esta campanha tirará do conforto diversas pessoas, e no Brasil teremos um problema maior ainda , porque nosso bom povo, foi conduzido a entender que eles precisam ser ricos, e a riqueza no Brasil é medido pelo nível de miséria que há abaixo dos sujeitos, ou seja, estar bem no Brasil na verdade é estar acima do outro.

Com esta mentalidade equivocada, novos sujeitos foram aclamados na política nacional e aumenta mais a matança dos grupos minoritários sem representação política. Morrem mais mulheres, mais afrodescendentes, mais jovens, o suicídio aumentou drasticamente e junto com todas estas mazelas aumentou o numero de instituições religiosas de tradição cristã neo-pentecostal. Não quero de modo algum dizer que a miséria social tá atrelada ao movimento espiritual criado por Jesus, posto que nosso país há muitas pessoas que tem fé nesta crença, mas quero dizer que em nome de Jesus, um movimento se levantou ou se reergueu se impondo e se associando com coisas eticamente incoerentes que não batem com os princípios cristão. Mas em fim não quero falar disto, quero apenas dizer que este novo modelo de mito não nos levará ao bem comum.

Ancestralidade mítica como resposta ao mal instalado

Nos últimos anos, reparei que as pessoas estão se dando por conta de um vazio existencial que mesmo o consumo, as grandes festas, e os vícios não são capazes de preencher. Sendo assim, esta aumentando o numero de pessoas que tem procurado resposta nas culturas orientais e nas religiões tradicionais africanas.

Esta busca destes sujeitos mostra que a felicidade não está em deuses externos ou mesmo mitos preestabelecidos. As culturas orientais e africanas tradicionais nos forçam a reverenciar os nossos antepassados, e assim sendo, somos forçados a ver melhor a nossa história, ir à busca dos heróis concretos de nosso passado que são os responsáveis espirituais e biológicos de nossa existência.

Encerro este pequeno texto, conclamando a todos independentemente de suas crenças particulares, a ire em busca de seus antepassados, descobrirem sua linhagem e zelarem por ela. E seja qual for à história, linda ou não tão bela, possamos nos reconciliar com ela e criar um novo fenômeno e um novo mito, o mito da comunhão entre os povos, o mito do respeito às diversidades étnicas, religiosas e de gênero e sobre tudo o mito de um Deus que tenha a firmeza de um pai e o pio afeto de uma mãe. Que não tenha gênero e nem nos tolha as expressões que carregamos dentro de nós.

Nana Vasconcelos, um grande percussionista do mundo ocidental e do Brasil, dizia que no Brasil tem uma áfrica que só da aqui, eu ousaria ir um pouco mais longe, no Brasil existe uma gente boa, fervorosa e feliz que só dá aqui. Sendo assim, precisamos reforçar estas qualidades e criar o fenômeno da bondade e da heroicidade de um povo que feito de escravos, índios e colonizadores, conseguiu se livrar da treva da ignorância e consegue harmonizar as diferenças em torno de uma vida de paz.

* Babalawo e sacerdote do culto de Orixá de tradição nagô/ioruba é professor especialista em filosofia e história afro-brasileira e teologia além de compositor e músico. www.euhenrique.com.br

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