Buscar

Reconciliação

Atualizado: 26 de jul. de 2018

Um ensaio sobre a temática a partir da ancestralidade.


Todas as culturas, tem na base de sua compreensão de existência, atividades e maneira de viver, a crença ou crenças em elementos mágicos, espirituais, todos conectados ou tendo a natureza como mãe e abrigo de seres viventes que somos.

Os mitos de crença, fizeram os indivíduos crer que ao nascer nos apartamos do grande ser original, e ao morrer nos unimos ao criador de volta.

A este processo de nascer e buscar a perfeição por meio de um comportamento ideal afim de que na morte sejamos contemplados pela luz do Criador, demos o nome de religião, e repetimos comportamentos e gestos de nosso grupo social, gestos estes chamados de cultura, que na verdade são repetições do entendimento de vida de cada ser mais velho.

Com o passar do tempo, alguns grupos começam a sistematizar estes comportamentos, gerando um código comportamental, que chamamos hoje de ética. Mas o fato é que, existe um consenso entre as mais variadas culturas, que precisamos reverenciar nossos antepassados, por entendermos que neles temos os exemplos de vida a ser seguido, assim são os espíritos xamanicos para os nativos da terra, os orixás e Egungun ou Vumbi para alguns povos africanos e os canonizados para os cristãos católicos. No entanto não podemos compreender como nossos antepassados, apenas pessoas ou objetos, mas também todos os conceitos e formulações sobre vida, hábitos, vegetais e animais.

A cristandade ocidental, apresentou um conceito de reconciliação como sacramento, onde confessar o erro é o elemento complementar , paralelo ao elemento principal de graças divinas. No entanto para as culturas que acreditam no culto dos antepassados, confessar não é meramente assumir erros, mas iniciar uma saga de cultos onde a gratidão é a base.

Sendo assim, a reconciliação passa obrigatoriamente por uma reverencia as nossas origens, onde a comunhão consiste na busca de nossos antepassados para restabelecer contato espiritual, cultural e místico com a nossa linhagem familiar.

Porém no Brasil, temos um problema sério. A formação do povo brasileiro foi atropelada, cheia de problemas morais, estruturais e conceituais, gerando uma verdadeira salada indigesta de pessoas, onde a negação desta história de formação é o prato principal.

Dentro deste contexto, a reconciliação e comunhão com a nossa história, é por vezes dolorosa. Quantas pessoas tem verdadeiro pavor de suas histórias de vida, quantas famílias já surgem fadadas ao fracasso, porque são constituídas por estupros, por casamentos forçados ou por interesses, quantos filhos que não veem em seus pais, os exemplos que devem seguir, e assim sucessivamente. Sem falar que no nosso país, a escravidão, a miscigenação por violência, abriu precedentes para uma camada de pessoas em estado de extrema vulnerabilidade.

No entanto, crentes que somos no Senhor do Céu, precisamos convocar de nosso Orí (nossa essência sagrada que esta em nossa cabeça física ) forças para superarmos os atropelos, e até mesmo assumir , por mais vergonhosa que seja a nossa história familiar e agradecer.

Cada cultura tem seu modo de reverenciar seus mortos, mas àqueles que não se identificam com nenhuma religião, sugiro que a melhor maneira e também muito efetiva, inclusive para os que são religiosos, é a prece e a mentalização com um coração limpo e um sentimento puro e isento de qualquer falsidade

A gratidão ao mundo espiritual, e o respeito que temos a nossa linhagem, nos fazem entender que o outro, que eu possa ou não conhecer, é também instrumento de minha reconciliação e aprendizagem. Sozinhos nenhum sujeito se tornaria melhor, ou pior, seria neutro.

Somente as pessoas ingratas é que desenvolvem relação de exploração do outro. Posso afirmar que, não existe amor ao próximo porque não há amor próprio, sendo assim, o processo de reconciliação passa por um reconciliar-me comigo, minha história e assim me concilio, reconcilio, amo e ajudo o outro, e reconhecendo no outro a possibilidade do exercício de minha melhora, me reconcilio com Deus e com os meus.

Só quem é livre se torna libertador!

282 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo