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Pretos velhos e os antepassados

Palestra conferida por ocasião da comemoração dos pretos velhos.

No dia 13 de maio, fazem alguns anos da abolição da escravatura. É uma memória problemática por dois motivos, primeiro porque sincretizou-se junto a abolição da escravatura o dia referente aos pretos velhos, que são figuras queridas pelos povos do Brasil. Segundo porque, todas as falas acerca da abolição da escravatura são românticas dos dois lados da moeda, românticas para a elite que chamam Isabel de redentora, e romântica para os demais povos ou pelo menos a maioria, por que infelizmente não conseguiram sair da dor de deixar de ser escravos dos grilhões mentais, pois julgo estes os mais problemáticos.

Também no dia da abolição da escravatura é o dia de Nossa Senhora de Fátima padroeira de Portugal, curiosamente neste dia, algumas pessoas de minha família, faziam procissão para esta divindade da cultura judaica/cristã.

Mas o que trago a tona aqui é a seguinte temática "reconciliação"! Até que ponto estamos tão marcados que não temos condições humanas de olhar para nós mesmos sem mágoas, sem dores e sem amores, apenas olharmos, assumirmos a nossa história e ficar em paz?

Em algumas trocas e partilha de pensamentos, recebi do amigo Vinicius a seguinte frase que destaco na integra: “Ficar em paz significa estar em paz com o outro também. O individual e o coletivo perpassa esferas outras de nós mesmos e da dinâmica social. Neste sentido eu fico pensando como estar em paz com movimentações da brankkkitude saca?!”

Tem algo de muito importante que o Vinicius falou que por mais óbvio que seja me tocou muito, neste contexto. Não quero levantar aqui neste momento a questão racial, mais quero levantar a ideia de que estar em paz comigo é estar em paz com o outro, inclusive um outro que tenha me ofendido, me feito mal inclusive para os meus.

Na nossa mente pragmática, estar em paz com o outro, talvez seja estar em paz com as demais pessoas apenas, ou com seu núcleo primário. Sim! Digamos que nós todos aqui neste espaço estejamos em paz uns com os outros, mais a pergunta que quero fazer é: Você esta em paz com a sua família? Com os mortos da sua família? Com a história da sua vida e com a história da sua família?

Esta pergunta talvez seja fácil de responder para muitos, porém a mim, é muito difícil, porque eu não consigo nem remontar minha árvore genealógica, o passado tão dolorido e moralmente tido como feio, fez com que os mais antigos de minha família, ou pelo menos os que conheci, escondessem o passado, as origens, os ritos e os costumes culturais. Costumes estes, que davam sentido ao existir da minha família quiçá do meu grupo étnico, ou numa linguagem mais moderna , da minha tribo e o mais grave , costumes culturais estes que dão sentido ao meu existir hoje.

Mas o que quero na verdade caros amigos é chamar atenção de todos para os nossos espíritos antepassados da linhagem familiar de origens africana.

Celebrar os pretos velhos, e fazer memória deles, não é prolongar o sofrimento nem meramente fazer as coisas que supomos que eles gostavam de fazer, pois enfeitamos muito a ideia dos pretos velhos, idealizamos eles com rosário, vestidos de branco e dando bons conselhos.

Bons conselhos sabemos que eles sempre dão, mais as orações, as formas de fazer orações de entoar os cantos de fazer determinadas coisas, fazem parte da ritualística fenomenológica dos mesmos. Então não podemos reduzir estes nossos ancestres a bons velhos que baixam no terreiro para dar passes. Eles representam ou são pontes entre nós e nosso continente mãe África, mas também não quero me reportar ao continente original de forma romântica. A África a qual me refiro aqui, é o centro que deu origem a natureza biológica e espiritual de meu corpo, com isto não quero alimentar a superioridade nem a inferioridade, mas a importância de saber que daquele ponto geográfico saiu algo que faz eu ser o que sou que é ao mesmo tempo plural e único, como é o continente africano.

Sabemos que a África como continente mãe, tem na sua base de cultos e costumes a memoria dos mortos, pois acreditam que neles há sabedoria suficiente para manter os seus membros vivos bem e em paz. Dentro deste bojo de manutenção de memória dos antepassados, temos uma questão muito importante que é a questão dos nomes. Nossos nomes em nada remontam nossas origens, pois os nomes nas mais variadas tradições tem relação com a missão individual e coletiva, acredita-se que quando se dá um nome que não tem relação individual do sujeito, cria-se um desalinhar do corpo, com a mente e com a missão, interessante de se observar é que no passado não muito distante, pessoas que queriam ser artistas criavam nomes, nomes estes que muitas vezes eram dados por outras pessoas mais antigas no oficio das artes.

Porém não quero tornar este momento, numa fala angustiante a cerca de uma série de coisas que não aconteceram conosco e que poderiam ser positivas. Quero me referir especificamente a reconciliação e aos pretos velhos, e o que eles significam enquanto antepassados.

Para falar de antepassados, precisamos nos distanciar do visão de mundo, escrita por Platão e endossada por Santo Agostinho que diz que somos corpo e alma e que o mundo vive dividido entre um mundo real e um mundo espiritual. Mais ao contrario, o mundo espiritual e suas camadas estão intimamente ligadas por força de um fenômeno, é como se o que sou hoje, e a forma como eu penso, fosse predeterminada pelos primeiros de minha linhagem aos grupos aos quais eles pertenceram e o que foi feito deles por força dos acordos sociais. Porque cito os acordos sociais? Porque por força dos pactos determinadas identidades e comportamentos foram cristalizados a ponto de ser impossível dizer o contrario, exemplo disto: a introdução da roupa no território brasileiro, os povos originários daqui não conheciam a roupa como a concebemos hoje, e andar nu ou com as roupas dos povos originários nos nossos tempos é até uma ofensa aos demais membros.

Mas voltando aos fenômenos para entender os antepassados, é preciso desconsiderar a idéia dual de corpo e alma, porque temos o conceito de ori e que para alguns povos africanos, um corpo possui quatro almas e uma destas almas vem atravessando gerações e fomentando o comportamento do sujeito a qual ela acompanha. Isto faz parte de uma metafísica a qual não quero tratar no momento, mais o que quero dizer é: Nós e nossos espíritos antepassados temos algo em comum, temos algo igual, e os problemas que nós hoje temos seja de ordem financeira, seja de ordem afetiva ou mesmo doença, é um desajuste entre esta força que temos em comum com este ancestre. E fazer memória dos pretos velhos, não é apenas um momento para participar de um ritual mágico com manipuladores de elementos mágicos, mais é trazer a tona, deixar brotar no peito a força do passado que mantém o nosso corpo hoje para que possamos construir fenomenologicamente um futuro feliz.

Adorei as almas, é ouro! as almas adorei!

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