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Elaboração Social de um Ancestral


1. A vida para a cultura yorubá.


 

Para compreendermos os orixás, precisamos compreender alguns conceitos e entendimentos dos povos originários da áfrica.

A visão Yorubá recolhida da oralidade, diz que tudo foi criado por uma divindade que chamamos de pré-existente, pois ele é anterior ao que se constituiu e anterior até mesmo aos nomes, por isto mesmo ele recebe um nome que não tem uma tradução exata, mas chamamos de Olodumaré ou Olorum (vale o grifo de que para subgrupos étnicos, Olorum é uma outra divindade).

Olodumaré O preexistente possui ao seu redor arquidivindades que construíram o mundo tal como o conhecemos, e sabe-se destas divindades, por elas manifestarem sua força em alguns momentos tacitos da criação e mesmo em outras cerimônias.

A vida na concepção yorubá é como uma missão bonita que devemos cumprir e está intimamente atrelada ao mundo espiritual ou outra dimensão da vida, então estar vivo aqui é como “estar morto lá”. E estamos vivos por um propósito e este propósito toma dimensões sociais importantes à medida que os nossos antepassados formulam suas vivencias positivas ou negativas, somos herdeiros e deixaremos herança.

2. A vida e a inserção no meio social

Para alguns povos africanos, as crianças não tem gênero, até os sete anos eles tem o mesmo sexo enquanto genitália e mesmo gênero, é como se eles fossem macho e fêmea ao mesmo tempo. O prepúcio do homem é como os grandes lábios das mulheres e o clitóris é como um pênis para as mulheres, sendo assim eles comungam a mesma identidade de crianças ou como são chamados popularmente de erês. Após os sete anos, o homem é circuncidado e a mulher sofre a excisão, pois a partir daí eles são identificados fisicamente por meio de cerimônias no meio do publico. Há talvez uma querela nestas questões se estas mutilações têm relações com os grupos abraamicos ou não, não entraremos nesta questão, mas o fato é que aos sete anos a criança é destinada ao seu local social, o menino vai para a floresta, e a menina começa a se entrosar no meio das mulheres, inclusive nos afazeres.

· Questão de gênero – o olhar para as questões de gênero de áfrica devem ser bem definidas e separadas. Temos grupos étnicos com inserção colonial e outros não, temos a metrópole e temos as capitais espirituais. Há diversas pessoas trazendo questões e criticas do hoje para o continente africano. O europeu criou e imputou conceitos os quais não cabem dentro dos grupos étnicos, inclusive o próprio mapa mundi desrespeita a diversidade de etnias e formas de compreensão e vida. As questões de gênero carecem de um estudo aprofundado das comunidades sobre o que elas pensavam antes da colonização e como ficou pós-colonização para daí sim dizer algo. Mas uma coisa é fato, a ancestralidade é dinâmica e com respostas para as questões mais urgentes.

· Iniciação social e religiosa – cada nascimento é um evento importante, os nomes das crianças nas comunidades tradicionais são dados de acordo com a sua missão e sua jornada se inicia quando, dependendo da comunidade, ela é enviada para um encontro mais intimo e espiritual na floresta, onde ele vai se encontrar com os seus antepassados e demais divindades, aprender sobre si e sobre os seus e voltar para sua comunidade pronto para viver aquilo para o qual foi criado e preparado.

3. A concepção do conceito de corpo e alma

· Ará – o termo equivale a corpo material que é dividido em ori, émi e esse.

· Ori – divindade mítica espiritual que compõe nosso corpo e é exatamente o que nos compõe e somos. É o que forma a nossa identidade e nossas características espirituais. Tem subdivisões assim digamos: Ori ode, Ori inu.

· Émi – seria a alma ou sopro de vida o que mantém o corpo de pé

· Esse – as pernas, o que sustenta o corpo e nos mantém de pé para a vida.

4. A questão do egbe orun

· Família espiritual – para a teologia yorubá, temos uma família espiritual para além dos orixás e egungun. Estas comunidades espirituais são como irmãos, pai e mãe, amigos, parentes e quando há desequilíbrio nela, as coisas na nossa vida e ao nosso redor também se desequilibram.

· Eguns e orixás – estas divindades são consideradas nossos antepassados e protetores, existem iniciações para estas divindades porque elas foram dignas de serem veneradas, seus nomes, suas vidas e seus atos foram alinhados e dignos de louvor e por este motivo alguns deles recebem cultos.

5. Iwapele – o bom caráter como chamado da vida

Para a teologia yorubá, precisamos ter uma vida digna e descente, sem excessos. Eu traduziria esta atitude como a virtude da prudência. A prudência que é tida pelos filósofos europeus como mãe de todas as virtudes, deve ser o norteador de nossa vida de caminho espiritual. O devoto dos orixás iniciados ou não, devem ser firmes na pratica das boas ações, serem limpos nos seus negócios e ávido na manutenção da devoção de seus antepassados e orixás. Só quem tem bom caráter, quem viveu bem sua vida pode receber as honras fúnebres e ser invocado como ancestral divino para abençoar e proteger sua comunidade.

6. O grupo físico social com o qual convivemos

Há um ditado antigo que diz “diga-me com quem tu andas que eu te direi quem és”. É muito importante que quem está em busca de uma vida orientada pela filosofia dos orixás, procure pessoas que edifiquem e engrandeçam a nossa vida, seja com uma palavra amiga, seja com um voto de sucesso ou mesmo um pensamento positivo em nosso favor. Não é possível se desenvolver sem estar num ambiente propício.

7. Morte aceitável e a elaboração ritual do ancestral da comunidade

Para todas as culturas a morte é sempre algo que não foi bem elaborado, porém para nossa cultura, morrer bem é de suma importância. Considera-se morrer bem, quem teve vida longa e viveu com bom caráter sua vida. Esta mulher e este homem que morre longevo e que teve uma vida integra, ajudou sua comunidade em vida seja com palavras seja com recursos materiais e por isto são dignos de receberem cerimônias nas quais se rememora os feitos da vida da pessoa e também se pede aos grandes espíritos, que recebam entre eles aquele que nós entregamos a terra e plantamos no chão como semente afim de que crescendo esta pessoa de quem nos despedimos, se torne um antepassado divino e possa nos abençoar e continuar nos aconselhando do orun onde esta.

Babalawo Ifadaré

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