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Egbe Orún e os sonhos - Adelonan Sangowale Isola



Em 1899 Sigmund Freud publicava seu livro mais conhecido “A interpretação dos sonhos” - este livro modificou a forma das pessoas lidarem com os processos inconscientes. Freud entendeu que os sonhos eram manifestações do inconsciente e nos ajudou a entender a forma de acessa -lo. Claro que Freud fez isso tendo em vista a cultura do seu tempo, a Viena do século XIX alicerçada nos pilares da “Era Vitoriana”. Os costumes eram influenciados pelo puritanismo cristão, repressor e castrador. Freud analisou muitos sonhos e através deles conseguiu compreender os desejos inconscientes das pessoas. Embora Freud tenha banido o misticismo sobretudo os que eram oriundo das culturas xamânicas e indígenas que ele mal conheceu, não podemos ter dúvida de que ele deu uma contribuição única ao tema - a de pensarmos de forma mais eficiente que o sonhos podem dizer alguma coisa sobre nós.

Nas culturas xamânicas / indígenas os sonhos sempre foram locais de acesso ao mundo invisível - antes de Freud publicar sua tese sobre os sonhos as pessoas procuravam entende - lós através de um viés religioso, através da mensagem divina. Nas culturas mais antigas, os adivinhos, os sacerdotes e sacerdotisas sempre tiveram a incumbência de traduzir os sonhos das pessoas como recado dos deuses e das forças da natureza que moviam a comunidade e/ou os indivíduos.

Egbe Orún não é orisa, e nem tão pouco uma divindade como alguns insistem dizer. Não se escandalizem, muitos Iorubás que estão dizendo que Egbe Orun é orisa, não conhecem dessa sociedade espiritual. A gente acostumou e há um projeto intencionado para que a gente acredite assim, que devido nossa falta de fluência na língua iorubá, não poderíamos ser eruditos nas tradições de orisa. Não é verdade isso, muitos destes que estão surgindo pelas redes sociais vendendo serviços são muçulmanos que estão retornando suas tradições originárias que pouco ou nada aprenderam delas. Saber a língua iorubá não é garantia de muita coisa, é tão somente a garantia de um acesso mais imediato aos pressupostos da tradição, diríamos assim.

Pois bem, não me cansarei de falar, Egbe Orún é uma fraternidade espiritual, uma comunidade de espíritos ligados a nós oriundos de outras vidas. Esses espíritos são amigos e familiares nossos, com quem tivemos profundas relações de afeto, de amor, de partilha etc. Quando a gente deixa o Orun para encarnar em uma família, muitas das vezes ou quase sempre eles ficam lá não vindo com a gente - essa saudade deles para conosco pode gerar em nós uma série de complexidades caso a gente não os agrade e não procure conectar com eles. Egbe Orun não se refere aos Ara Orun, refere exatamente a fraternidade espiritual - é necessário ao abordar questões em torno de Egbe fixar nesta dimensão de um grupo espiritual que nos acompanha desde outras vidas.

Egbe Orún é uma sociedade espiritual tão poderosa e tem gente que quer tentar descredibilizar isso por mera falta de conhecimento e acesso. É porque Egbe Orun só se mostra para seus Elegbes, seus sacerdotes e sacerdotisas. Todo mundo tem seu Egbe Orun, mas não é todo mundo que precisa cuidar/cultuar Egbe Orun, embora toda pessoa pode receber em um determinado momento da vida as bênçãos do seu Egbe Orún.

Essa fraternidade espiritual do mundo invisível incide diretamente sobre o nosso comportamento, quero lembrar que ela não tem nada a ver com destino e nem com ori, embora nosso ori é o artífice principal do processo que faz acontecer nossa existência. Mas é importante salientar que Ori esta para o destino das pessoas e Egbe Orun estar para o comportamento delas - isso é fundamental a gente ter claro para entender como Egbe Orún funciona em nossas vidas.

Um dia desses um leitor disse que Egbe Orun não era tão complexo assim como eu costumo dizer, pelo contrário Egbe Orun é o maior problema da humanidade, ao mesmo tempo que é também a solução. O nosso tempo carece de atenção e a maioria das doenças chamadas psicossomáticas, bem como as neuro-patologias, os transtornos mentais, as delinquências e as drogadições entre outras coisa podem ser geradas / ocasionadas por questões relacionadas com Egbe Orun. Questões relacionada ao grupo familiar - inadequação, revolta entre os pais e filhos, bem como falta de sintonia entre casais também podem ser questões com Egbe Orun.

Onde estar o limite entre a ação de Egbe Orun e a de Ori? O limite estar na análise da vida da pessoa. Como? Através da consulta orácular e de uma anamnese - o sacerdote deve saber abordar a questão para além do campo mágico. Ou seja, não é porque apareceu um Odu de Egbe Orun que automaticamente o problema é de Egbe. Nem sempre questões relacionadas a Egbe Orun estão tão somente nos ditos odus de Egbe - isso não é bem assim, é necessário trabalhar com o pressuposto da relativização. Até porque muitos sacerdotes de Egbe Orun nem trabalha com a ideia de odu - deve ficar claro que o conceito de odu não é a única forma de abordar e/ou apreender algum tema acerca de Egbe Orun e/ou de alguns orisas. Seria relativizar para entender melhor, ou para ir mais além. Um odu transita múltiplas coisas e vários acontecimentos - é necessário perspicácia para entender isso e quem consegue abordar o oráculo de uma forma mais filosófica e menos mecânica com certeza vai acessar com mais facilidade o que estou dizendo. A verdade é utilizar o oráculo como possibilidade diagnostica pra tudo e não como fim último - é esse o “pulo do gato” para aqueles que são oráculista e claro deve contar com a bagagem de vida, a maturidade e uma excelente formação humana, sócio-antropológica e biológica.

Egbe Orún é da água, é fundamental entender isso. Sem água não existe Egbe Orun. Não é somente Iyalode / Eleko que possui o pote de água chamado aawe - qualquer classe/tipo de Egbe Orun deve ter o pote. Por que? Porque o pote aawe é onde se realiza a conexão com a sociedade espiritual, é onde se fixa a sintonia do indivíduo com o seu Egbe. É onde também a água bêbera seus pedidos conduzindo - os até seu Egbe. Vale salientar que água é maternidade, é ventre de força originária. É porque Egbe Orun capta nossa energia da infância - não é que ela seja uma sociedade infantil - não. É que a força que presentifica nela é força pura da nossa infância e do nosso momento iniciático de vida. Diferente do Egbe Egungun que capta a força da senhoridade dos nossos antepassados. Por isso que é importante, em se tratando de Egbe Orun ter muito amor e afeto.

Água representa também o manancial de onde vem a comunicação com o mundo invisível de Egbe Orun, é neste sentido que os sonhos é uma das maneiras mais profundas de comunicação e revelação do Egbe da pessoa. Egbe Orun fala através de sonhos, os elegbes geralmente sonham muito e muita gente recebe recado da sua fraternidade espiritual através do sonhar. E os sonhos estão quase sempre relacionados com a água - pessoas afogando, pessoas nadando, pessoas fazendo travessias através de portais interdimensionais desencadeados pela água.

A água é lugar de passagem, os sonhos que temos são passagens / portais para desencadearmos compreensões e elucidações acerca de nós mesmos. A água também é território primordial da vida uterina e a simbologia do pote está profundamente ligada à Osun / Yemoja e Oba - divindades que possuem relações profundas com Egbe que será tema de um outro ensaio.

Relatar um sonho é em si uma tarefa difícil porque tem a ver com o processo de recordação e interpreta-ló é um exercício mais difícil ainda. Sempre parto do pressuposto que entender um culto tão somente pela sua mecânica não é salutar - o povo iorubá, sobretudo o povo de orisa, são extremamentes inteligentes e filosóficos, eles conseguem fazer amplas reflexões. É uma coisa linda essa gente. Neste sentido que eu entendo que em nosso país muitos sacerdotes carecem da capacidade de fazer reflexões e digo que isso tem a ver com o pouco estudo de muitos - isso é uma realidade terrível entre nós. Mas para além disso, tem uma cultura que não é treinada para pensar, diferente da cultura iorubá que apesar do colonialismo, eles são uma tradição oral, eles treinam desde pequenos na arte do pensar - são filósofos por natureza.

Egbe Orún é um culto profundamente filosófico, é profundo, reflexivo e forte. Os sonhos que Egbe nos revelam quase sempre chamam nossa atenção para algo, uma necessidade, um socorro, quando não, Egbe também é capaz de mostrar aos seus Elegbes o problema e a solução de questões de outras pessoas. Por ser uma sociedade espiritual o acesso a eles é diferente do acesso ao orisa. Seus sacerdotes usam invocações próprias, conversam com Egbe Orun através do obi e sem duvida durante o próprio ritual Egbe Orun pode fazer comunicações / intuições aos seus sacerdotes e levá-los a falar algo - é poderoso sim. Isso requer conexão, quem veio do Orun com a força de Egbe Orun não terá dificuldade de conceder passagem as manifestações deles.

Sonhar sempre foi uma arte para várias culturas, nossos sonhos podem ter significados diversos. Um dia desses um amigo que está com sua mãe doente teve um sonho inusitado - de dentro da barriga da mãe ele via uma criança saindo coroada. Ele dizia também que quem retirava a criança era Iku. Eu perguntei porque você acha que foi Iku? Ele respondeu: “porque era algo do meu imaginário que representava morte, estava de preto e não tinha rosto”. Interessante verificar os sonhos através da cultura da pessoa, de como ela compreende e apreende as coisas. Ele me ligou pedindo uma interpretação - eu disse que a mãe dele estava preste a partir e que uma criança nasceria na família. Essa criança seria coroada e deveria ser cultuadora / devota de Egungun - é que na morte de um ente querido, quase sempre um outro processo de vida e de bonança se liga ao evento - sobretudo quando se é um velho(a) partindo.

Por fim, os sonhos são sim “janelas da alma” como bem afirmou o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, através dos sonhos a gente acessa o mundo invisível, os recados que vem do outro lado da vida e as mensagens salutares dos nossos amigos e familiares espirituais.

Egbe dakún ooo Akikaaaaaa Asegeeeee

Muso! Muso! Muso!

Baba Adelonan Sangowale Isola

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